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Véspera por Nino Cardoso.
Para o pequeno menino de seis anos, cabelos alaranjados e dentes um pouco tortos, era mais do que uma simples caixa num dia comemorativo. Era uma caixa, embrulhada em um papel azul brilhante com desenhos de palhaços, enlaçada por uma fita verde, que tornara-se naquele momento o seu presente de Natal.
No ano anterior ele havia pedido uma bicicleta (como sempre pedem os garotos de cinco anos), mas esta não chegara devido ao nascimento do irmão mais novo uma semana antes das festas. O ocorrido fez com que seu pai perdesse mais do que a cartinha que ele deixara acima da mesa com o pedido, mas também, a memória e o tempo para se dirigir a loja de brinquedos.
Neste ano ele decidira não pedir nada. Estava zangado pelo ano anterior e, talvez, imaginava que a correspondência com uma nova gravura daquilo que pedisse, pudesse remeter a divisão do espaço e dos pais com uma terceira criança.
Pudera! Imagine só, todos os seus desejos escritos (ou desenhados, tanto faz) transformando-se em novos bebês. Ele preferiu abandonar-se a sorte da lembrança do pai.
Dito e feito. Desta vez ele se lembrou. A caixa não era grande, pois, ele ganhara a bicicleta de aniversário e, no momento o que importava era que o presente estava ali. Materializado. Ele poderia simplesmente rasgar o papel e começar a brincar – ou vestir, ou escutar, ou comer, ou não importa! – com ele ali mesmo, mas a atitude foi de subir as escadas e se fechar no quarto. Já pensou se num relance curto, num pequeno desvio de um ruído, num menor piscar de luz, o irmão (aquele que lhe roubara o Natal anterior), de relance, visse o presente primeiro? Seria muito azar. No quarto ele apenas compartilharia o sabor daquilo que houvesse dentro da caixa com o gato. Um felino que para ele servia como o tio velho que morava junto em casa, fora dado de presente para a mãe, pelo pai, no Natal anterior antes de seu nascimento e, ali ficou.
Psiu, ele exclamou ao gato que acabara de esticar-se sob o tapete em formato de trenzinho próximo a cama.
Ao puxar o primeiro fio do laço, ele sentiu o coração bater mais e mais forte. Sua pulsação era crescente, por menos que ele soubesse o significado da palavra pulsação. Ao puxar o segundo fio, seus batimentos aceleraram freneticamente a ponto de sua respiração por um breve instante falhar. O nervosismo era tanto, que misturado com o entusiasmo, era possível de se distinguir. Com as duas mãos no papel azul, único obstáculo a afasta-lo da caixa, ele segurou duas pontas que lhe facilitaria o rasgo.
A luz acabou, junto com uma pontada que lhe acertara o peito.
Neste pouco mais de um minuto sem iluminação, os pais subiram para o quarto do menino a ver se tudo estava bem, com aquele que odiava dormir com o abajur apagado. Ao abrirem a porta, estava o gato a lamber o pêlo sobre o tapete e um menino caído ao lado de uma caixa mal desembrulhada, onde revelava apenas, dentro de um plástico transparente, um robô articulado, desses que ele tanto pedira quando o vira na televisão.


4 commentaires:
histórias de presente de natal me deprimem... nhá
Nino, como sempre você arrassa nos seus textos. Esse particularmente me deprimiu, mas não pense que seja ruim, porque não é, se ele provocou esse sentimento é porque ele é um otimo texto. Vc é quase um Nino Lispector...[ bjo querido...]
Sem palavras... pq vc escreve tao bem??! me ensina???huahua
É triste mas mtoooo bem feito!
Qro ser o primeiro a comprar seu livro, qdo ele for lançado!hahaha
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